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DEUS E O DIABO NA TERRA DO METAL Para se entender melhor este título, torna-se necessário entendermos, não apenas, a que terra nos referimos, como sua história. Para isso, mãos à obra: O UNDERGROUND “Quem quer que controle a mídia, as imagens, controla a cultura” Allen Ginsberg
A terra em questão é o Underground, cenário por excelência onde a música Heavy Metal habita. O Underground como palavra para designar determinado ambiente cultural, surge na década de 60, como forma de nomear um movimento cultural de contestação às idéias que então dominavam toda forma de arte.
Cansados da dominação de uma elite que ditava o que era o certo, o bom e o economicamente viável, alguns artistas se empenharam em criar meios capazes de se tornarem independentes desta elite dominadora. Daí o sentido para tal nome, já que Underground (palavra em inglês) significa subterrâneo, o que está sob a superfície da terra, como metáfora para tal movimento, já que fica subentendido não apenas a existência, como uma certa independência entre estes dois mundos: o mundo das idéias vigentes (Mainstream), sobre as formas de expressões artísticas e este novo modo de ver as artes, com total liberdade. Dentro deste contexto, o termo Mainstream “inclui tudo que diz respeito a cultura popular, e é disseminado principalmente pelos meios de comunicação em massa. Muitas vezes é também usado como termo pejorativo para algo que ‘está na moda’”, contrastando, visivelmente, deste modo, com a idéia de Underground. Por outro lado, pode-se, no entanto, afirmar que o movimento Underground, visto, por um lado mais geral e abstrato, como forma de contestação a uma ordem vigente, é muito mais antigo do que se pensa, podemos vê-lo, por exemplo, em escritores como MARQUÊS DE SADE* (1740 – 1814), que perseguido por três formas de governos (monarquia, revolução francesa e pelo imperador Napoleão) pôde escrever seus escritos em manicômios, protegido por sua suposta loucura.
Em seus escritos proibidos, editados e publicados clandestinamente, Sade criticava a moral hipócrita de seu tempo, que junto com o poder religioso, servia apenas para manter os poderosos no poder, por meio da ignorância e da força, sobre aqueles que contestavam seus conceitos de liberdade, beleza, moral e arte. Bem como outros autores, como os escritores da chamada Geração Beat (Allen Ginsberg (1926 – 1997), William S. Burroughs (1914 – 1997), Jack Kerouac (1922 - 1969), etc.), que tanto influências exerceram sobre a juventude ansiosa por liberdade das décadas de 50 e 60, bem como em músicos como Jim Morrison (The Doors), Joe Strummer (The Clash), Ian Astbury (The Cult).
De modo geral, podemos associar o termo Underground, a todos os escritores que, por algum motivo, contestaram as idéias dominantes de sua época.
Portanto, pode-se dizer que como forma de arte contestadora, o Underground sempre existiu, sob este ou aquele nome, como no conceito de contracultura tão usado como sinônimo. E que este já existia muito antes que o Heavy Metal, e mesmo o Rock, houvesse a possibilidade de existir.
* Ver o artigo: Sade, O Filósofo Maldito O UNDERGROUND E OS POSSÍVEIS MUNDOS ALTERNATIVOS Porém, torna-se de extrema importância ressaltar a profunda independência que deve haver entre o Underground e o Mainstream. Esta independência é a própria essência do Underground. Por isso não basta apenas que um artista, ou, de modo geral, alguém que nade contra a corrente da grande mídia, da grande cultura estabelecida, para ser considerado Underground. É necessário que este alguém tenha a idéia de que sua arte, suas idéias, jamais poderá fazer parte do Mainstream, pois caso contrário suas idéias deixam de ser Underground e passam a ser Mainstream, passando, deste modo, a ser usado pela grande mídia. Alguém que partindo de formas de artes ou idéias não convencionais, como a música Underground, sonha torná-la tão popular, quanto a mídia estabelecida, só pode ser considerado como parte de um Underground transitório, ou seja, de um falso Underground, pois o que se pretende, neste caso, em outras palavras, é apenas trocar as idéias dominadoras atuais por outras. Para mim seria melhor conceituá-lo como alternativo.
É preciso que saiba que sua arte, suas idéias pertencerão apenas a um pequeno grupo de pessoas, será como um pequeno refúgio contra a grande mídia, e que aí reside sua graça, pois tudo que cresce em quantidade, perde em essência.
O ROCK E O UNDERGROUND  | CHUCK BERRY um dos ícones do Rock'n'Roll |
Comenta-se sempre que o Rock é uma forma da cultura americana ser imposta à outros povos. Um modo de alienar o povo e impor o estilo de vida americana. Esquece-se, porém, que o Rock em sua origem foi várias vezes banido por esta mesma cultura, pois nascido em meio a cultura negra, o Rock sofreu tanto preconceito quanto o racismo direcionado aos negros. Sendo permetido sua execução, como música negra, como era costume na época, apenas em rádios ou ambientes freqüentados somente por negros. E ao torna-se admirado por jovens americanos brancos, na década de 50, tornou-se um meio importante de respeito inter-racial, já que os ídolos destes mesmos jovens eram negros, cujos pais, racistas, odiavam. Deste modo, pode-se dizer que o Rock já nasceu contestador em seu próprio berço. Se o Rock foi banido em seu próprio solo de nascimento, em suas origens, e adaptado a tantas formas de cultura, dos mais diversos modos (até mesmo como veículo usado para manifestar o repúdio ao domínio americano), tão peculiares quanto estas mesmas culturas, por que não chamá-lo de universal?
E não apenas estes atributos tornariam o Rock Underground, quanto outros elementos de libertação, como a sexualidade, tão cantada em suas letras, o que certamente entrou em choque com a cultura enraizada, hipócrita e conservadora da cultura religiosa americana, culminando com a libertação sexual e econômica das mulheres americanas no final da década de 60. Atributos que o Heavy Metal não apenas herdaria, como aumentaria de intensidade anos depois.
Aqui, certamente, começa a briga entre Heavy Metal e a religião estabelecida, o Cristianismo, pois ao tomarem a música como forma de expressão de sua natural capacidade sexual, os roqueiros, e em especial, pela enorme intensificação desta mesma manifestação, os músicos de Heavy Metal passaram a atacar, não apenas amoral cristã, quanto as próprias bases da fé cristã. O que se agravaria ainda mais com subgêneros originados do Heavy Metal, como o Death Metal e principalmente, o Black Metal, que passaram a aliar à suas letras blasfêmicas, o que os cristão mais detestam: o Diabo**. Ou a cultuar crenças e deuses pagãos. Chegando mesmo a chocar o público cristão, com suas capas de discos atacando diretamente a própria imagem de Cristo. De forma que não seria de estranhar um posterior contra ataque cristão.
** Para saber mais veja o artigo: O DIABO E O ROCK: DESMISTIFICANDO O MITO WHITE METAL: O CONTRA ATAQUE CRISTÃO  | "Fala-se do diabo. Ele não é meu amigo. Voltar-nos contra ele é o que temos em mente.Apenas um mentiroso, apalavra nos diz isso. Nós gostaríamos que ele soubesse paraonde ele pode ir. Pro inferno com o diabo". Da música To Hell With The Devil da banda STRYPE |
A música como forma de expressão humana está ligada a quase todas as formas da atividade humana, e quanto a religião, não poderia ser diferente. Embora nos templos e igrejas cristãs as músicas ligadas a seus cultos fosse bem mais tradicionais, com andamentos e ritmos lentos, já havia em algumas formas de cultos cristãos, principalmente os ligados às comunidades negras americanas, músicas com ritmos bem mais acelerados, como o blues, o rhythm and blues e o soul, ritmos oriundo da cultura negra.
E seguindo uma natural tendência de incorporar outros ritmos às mensagens cristãs, muitos jovens as adaptaram a ritmos bem mais modernos, como o Heavy Metal. Uma das primeiras bandas de Heavy Metal cristão a popularizar tal mistura, numa proporção jamais vista, foi a banda americana STRYPE (palavra que se origina de stripe, que em inglês significa faixas, listras, numa alusão a ferimentos causados por chicotes). Seu nome foi tirado de uma passagem bíblica: “Através de suas faixas seremos curados”, Isaías 53:5, interpretado como sendo as feridas de Cristo.
A banda tinha como marca roupas em faixas em preto e amarelo, bem como a peculiar característica de jogar Bíblias para seu público durante seus shows.
Com o tempo outros subgêneros do Heavy Metal foram incorporados a tal iniciativa, como o Thrash Metal, Death Metal, Doon Metal e, por incrível que pareça, embora pareça extremamente contraditório e impossível de ser concebido, o Black Metal, o chamado Unblack Metal.
WHITE METAL E O UNDERGROUND Embora possamos conceber um Heavy Metal cristão, ou até mesmo um Black Metal cristão - sim, por que, não? lembrando que em muitos templos evangélicos fala-se muito mais no Diabo que em Deus - porém um Underground cristão me parece impossível.
A fusão entre Cristianismo e Heavy Metal, e muito mais com seus subgêneros, prova que as mudanças de interpretações de letras de músicas não possui fortes influências sobre a parte verdadeiramente musical, aliás, pode-se fazer música até mesmo sem letra, vocês sabiam??? Assim, um suposto sujeito poderia muito bem ouvir o mais puro Death Metal, e após sua conversão ao Cristianismo continuar ouvindo-o, só que com temática cristã, como na banda cristã de Death Metal MORTIFICATION. Deste modo, pode-se conhecer determinado gênero de Heavy Metal sem a necessidade de conhecer sua história, mas quanto ao Underground é impossível, quem faz isso nega sua essência.
Aquele que afirma existir um “UNDERGROUND CRISTÃO”, não conhece sua história - assim como parece não conhecer a própria história cristã - e deste modo, associa-o apenas a música, e entre a música, ao Rock, e por isso, afirma tal coisa. Porém, como já foi visto, a Cultura Underground é muito mais do que isso: é um conjunto de idéias, artes, comportamentos, atitudes políticas, etc., contrárias as idéias vigentes, e entre esta, a mídia, como se pode ver claramente em suas origens. E poucas idéias são tão DOMINANTE, tem, e tiveram, tanto poder sobre a mídia, quanto o Cristianismo! São dois mil anos de dominação! Basta para tanto lembrar a INQUISIÇÃO***, em que milhares de pessoas foram mortas por não concordarem com idéias cristãs, as CRUZADAS, em que outros milhares de islâmicos foram mortos, para que o Cristianismo pudesse dominar Jerusalém, o MONOPÓLIO do conhecimento em nome da religião cristã, que rejeitava à força qualquer idéia científica que discordasse das idéias cristãs, etc., etc., etc.
Sei que os cristãos de hoje nada têm haver com o que houve no passado, mas quando se trata de idéias e de crenças, a história tem muito a nos ensinar, principalmente: que torna-se sempre necessário questionar toda forma de idéia e crença para que não haja exageros e fanatismos. Sendo este o grande papel do Underground.
*** Para saber mais veja o artigo: INQUISIÇÃO: TORTURA E DOR EM NOME DE DEUS WHITE METAL X BLACK METAL Na luta entre o White Metal e o Black Metal é interessante notar que os cristãos do White Metal lutam contra aquilo que foi criado por eles próprios: esta imagem malévola do Diabo, pois como já foi mostrado aqui mesmo (ver o artigo A Verdadeira História do Diabo (e do nº 666)), tal imagem foi criada para denegrir a imagem de outros deuses. E os “satânicos” do Black Metal lutam por uma criação cristã. O símbolo da cruz invertida, tão usada no cenário Black Metal, é um bom exemplo disso, ela, mesmo invertida, continua sendo um símbolo cristão: símbolo do apóstolo Pedro, que foi crucificado de modo invertido.
Contudo, a defesa no paganismo continua válida, para aqueles que crêem nela, já que vivendo sob a liberdade de expressão, todas idéias coerentes são válidas de serem defendidas, ou alguém tem saudade da INQUISIÇÃO? POR FAVOR, QUE ESTA DISCUSSÃO PERMANEÇA APENAS NO MUNDO DAS IDÉIAS, E DO RESPEITO MÚTUO. |